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# A *Gestalt* e seu "realismo crítico"

É famosa a passagem de Kurt Koffka ilustrando o cavaleiro que atravessa o lago congelado de Constança achando que cavalgava por sobre a neve. Quando chega em seu destino e é informado do que fez, o cavaleiro tem um susto e cai morto no chão.

Diz Kurt Koffka: o "meio comportamental" do cavaleiro lhe apresentava uma planície, embora o "meio geográfico" constituísse, no fundo, um lago, cujo gelo poderia ter rompido e engolido cavaleiro e cavalo. Há, para o gestaltista, dois "meios", aquele vivido e aquele outro que ultrapassa os fenômenos, "trans-fenomenal".

A tese de fundo, tal como a nominam por exemplo os gestalt-terapeutas, é a do "realismo crítico": há de fato uma espécie de mundo real, uma *Realität* que ultrapassa o âmbito fenomenológico, mas pode de algum modo cair nele; e há o mundo "atual", efetivo, vivido sob significações fenomenológicas. O mundo real pertence ao meio geográfico - por ex, o lago para além do cavaleiro -, enquanto o mundo fenomenal pertence ao mundo comportamental.

A tese é muito curiosa, caso comparada com Kant. Neste, a noção de coisa em si servia como uma noção-limite que impedia a existência de um meio geográfico. Qualquer meio geográfico, sob a noção kantiana, seria, ao fim, algo receptível pela intuição e determinável sob conceitos, e portanto, jamais passaria de outra coisa que não um "meio" fenomenal, mesmo que implícito. Segundo Kant, considere-se qualquer conhecimento, e ele será da alçada das determinações do entendimento.

Mas em *Gestalt* há a curiosa cisão entre um meio que é geográfico e não comportamental, mas pode tornar-se comportamental.

Essa noção poderia inclusive dizer respeito ao seguinte: o que diz respeito ao meio geográfico pertence ao mundo de qualidades físicas, que podem ser interpretadas sob o meio comportamental. O meio físico tem precedência sobre o meio comportamental.

Mas, como o gestaltista não deixaria de notar, mesmo essa insistência de um mundo físico ou de um "lá fora" sobre nossos comportamentos não deixa de ser dada a partir do momento em que nossos comportamentos existem sob o meio comportamental. As teses da *Gestalt*, mesmo que emprestáveis da física, obrigatoriamente se confrontam com a necessidade de postular se estamos aqui falando de psicologismo ou não. Pois há um curioso redobramento, uma reduplicação entre o que pertence ao geográfico e ao comportamental: o geográfico é assumido como exterior e primeiro frente ao comportamental; por sua vez, toda condição do que pertence ao geográfico é primeiramente determinada pelas características comportamentais humanas.

Tome, por ex., um conceito físico qualquer. Nenhum gestaltista diria que ele é uma expressão do mundo "tal como é", pois foi criada por um físico e, portanto, dentro de um meio comportamental humano. É este que, sob seus conceitos, postula, mesmo que reflexivamente, os conteúdos do que se chamará de meio físico. Aquilo que se imporia a um ser humano, portanto, não poderia ser determinável senão a partir do meio comportamental humano.

Mas em *Gestalt*, o jogo recomeça: há um mundo lá fora, que ao mesmo tempo é e não é tornável comportamental.

Se essa reduplicação entre o geográfico e o comportamental criticaria teses como a de Kant, é curioso como o "realismo crítico" aqui envolvido revela novos problemas. A realidade lá fora é e não é determinável sob o mundo fenomenal humano, que é e não é dependente da realidade exterior.

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