@raissa Pois é, Raíssa, há muitas questões atravessadas nisso, né?
Por ex., eu não sou lacaniano, mas estou achando um terreno bastante difícil esse da leitura do Lacan, e não devido exatamente ao autor. Lacan gosta de distribuir referências e alusões no texto e não se sabe sempre a quais sujeitos as palavras se referem, há muita referência cruzada (com seus y, en etc.), sem contar ainda as palavras masculinas e femininas, as atribuições à platéia... Sem um trabalho cuidadoso do tradutor em referenciar as idéias a seus devidos lugares, por vezes não se sabe se um termo se dirige à platéia ou a algum termo dito lá atrás, sem contar que os significados das palavras resvalam e nem sempre a palavra mais transparente é a melhor para traduzir a idéia. O resultado, nisso, é que a tradução pode até ser formalmente correta, mas vira uma salada ou um labirinto que não é aquele da retórica do Lacan.
Isso tudo, ao fim, pode gerar leituras bastante, digamos, inesperadas. Mas tudo poderia ser contornado com um cotejo básico que situe o leitor.
@raissa @raissa Por ex. (é reabrir o livro e achar aquela passagem estranha, que não pareceria ser questão de estilo),
> "Muitos outros, contudo, oferecem-nos seus leitos paralelos nesses jogos amorosos, nas cadeias em fuso desse campo de linguagem" (Outros Escritos, p. 159).
No original:
> "Maints autres pourtant nous offrent leurs courbes parallèles en ce déduit, aux chaînes en fuseau de ce champ de langage" ([fonte](https://ecole-lacanienne.net/wp-content/uploads/2016/04/1953-09-26a.pdf))
Fiz uma volta imensa: por que "leitos paralelos" e "jogos amorosos"? Pode ser que, para a edição dos Outros Escritos, a redação tenha sido alterada. Isso justificaria, por ex., uma nota do tradutor para isso.
Sem ela, fiz uma volta imensa, e a única associação plausível que encontrei foi a de *O simbólico, o imaginário e o real* que associa o exemplo que Lacan utilizara a pouco (ele estava falando da senha como um significante que abre significados diversos daquele que denotaria imediatamente) com o da linguagem amorosa (na qual falamos "meu docinho" etc.., também dobrando as significações).
Mas olhando o original, ao menos o de 1953, sequer é isso que se menciona. Pergunta-se se a tradução poderia ser algo assim:
> "Muitos outros caminhos, entretanto, nos oferecem suas curvas paralelas nessa dedução, nas cadeias em fuso desse campo de linguagem"