@plutzie Mas aí é interessante o argumento de Foucault, por ex., em sua História da Sexualidade. Ele se pergunta por ex. por que é que o ocidente foi moralizar logo a conduta sexual e não outras condutas públicas, por ex. políticas. É porque o ocidente "escolheu" cada vez mas unir a pergunta sobre quem nós somos com a resposta sobre nosso uso do sexo na intimidade e sobre nosso desejo. Traduzindo: cada vez mais passamos a delimitar o que somos nós e o que temos de mais íntimo e próprio a partir da nossa relação com o sexo, seja negativa (durante quase 2000 anos), seja nessa tentativa de positivar hoje as relações sexuais.
Disso, o que mais me impressiona é essa tentativa de alargar uma espécie de des-moralização geral do trabalho, agora também aplicada quanto ao trabalho sexual: se tudo já é explorado, por que também não incluir o trabalho sexual nessa exploração? Por que, ainda, mantermos o pudor entre o trabalho que se desregulamenta e o trabalho sexual que nunca pôde ser regulamentado?
Certamente isso mexe com muito de nossos preconceitos a respeito do trabalho sexual, o que dá uma visão de que a des-moralização do trabalho sexual seria equivalente a uma emancipação dele.
Só que eu acho que deveria ocorrer exatamente o inverso: não incluir o trabalho sexual na desmoralização geral do trabalho, mas por assim dizer re-moralizar todo o trabalho: retornar à discussão sobre direitos e, principalmente, sobre a redução das jornadas de trabalho para visar pleno emprego. Isso poderia até oferecer uma discussão sobre o trabalho sexual que não deixe passar nem os velhos preconceitos do ocidente, nem os novos preconceitos que nossa cultura começa a fazer passar por debaixo do tapete.
Sem o que, num futuro próximo, seremos todos não exatamente trabalhadores sexuais libertos de julgamentos morais, mas sim desempregados com empregos sazonais (sexuais ou não) e uma ultraprecarização que ainda ceifará muita vida.
É muito interessante isso tudo, pois o trabalho sexual toca nessa velha relação ocidental entre sexo e intimidade. Num mundo no qual toda intimidade é expropriada, não haveria por que não alargar o critério de expropriação para o que, até então, estava na fronteira do "proibido".