@andrelopes eu não sabia disso. Outro motivo para vazar do twitter
# Variações sobre o descuido
Moro no RJ há muitos anos, e há algum tempo vi um caminhão atropelar um ciclista por um motivo ridiculamente evitável e banal, por simples descuido.
O ciclista, um catador de latinhas, havia reduzido a velocidade da bicicleta e se desequilibrou só um pouquinho. Mas, como é de se ver tanto por aí em situações parecidas, ele não teve lá aquela preocupação com os outros ao redor e deu aquela valorizada no desequilíbrio, jogando a bicicleta para o lado. Em 99% das situações a bicicleta se reequilibra e ele segue, apenas dando aquele "susto" despropositado em eventuais pessoas ou motoristas ao redor. Só que, como ele usou certo jeito tão difundidamente descuidado, a bicicleta não ajudou, o reequilíbrio não ocorreu e ele foi caindo, caindo daquele modo que parece em câmera lenta, como se o descuidado desse mãos à fatalidade a conta-gotas, abrindo espaço para a ela até que ela tome conta.
E lá atrás vinha um caminhão. O motorista fazia como tantos outros caminhoneiros e, mesmo com o caminhão carregado, não se importava muito seriamente com os limites de velocidade, mesmo nas ruas internas da cidade. E também como tal, o motorista é daqueles tantos que gostam de fazer (com o carro) curva aberta em esquina na terceira marcha e só reduzir caso precise, de jogar o carro em cima do pedestre mesmo quando ele tem razão, enfim, de usar a mesma habitual grosseria e descuido com o alheio à qual o ciclista também é familiarizado.
E o motorista vinha a certa velocidade, não muito alta mas suficiente para fazer um estrago. De repente, ele se deparou com o ciclista, mas não o ciclista em sua frente já caído, e sim o ciclista naquele ato de queda em câmera lenta. Enquanto motorista médio, o primeiro ímpeto do motorista, como que por um segundo, foi o de não frear, já que a má educação é patrimônio imaterial de certos lugares. Mas já no momento seguinte o motorista nota que a situação não é mais uma tosquice cotidiana, porém real e séria, e então freia o caminhão com toda força.
O resultado é aquela freada em "soco", na qual ao final o caminhão dá aquela batida seca. E a batida coincide exatamente com o fim da queda do ciclista, como que dando aquele tranco em suas costas e bacia, engolindo a bicicleta e lançando o ciclista a 1,5m do caminhão.
A reação do povo ao redor é a de um linchamento às avessas: num linchamento, as pessoas se revoltam e querem partir para cima do ladrão, agressor ou o que o valha. Mas num acidente o princípio é o mesmo, porém inverso: elas querem restituir logo a saúde. Por isso o primeiro ímpeto é o de tirar a pessoa da frente do caminhão, restituir rapidamente a boa ordem. Duas pessoas puxam o atropelado pelo braço e a sorte é que havia alguém a impedir isso enquanto a ambulância não chegava (afinal, se a pessoa está fraturada e é grave, uma remoção sem os devidos cuidados apenas piorará a situação).
É claro que a rede de descuidados, nessa situação, se multiplica: o "acidente" produz uma fila com aquele espetáculo grotesco de pessoas apenas preocupadas em passar (quase causando outros "acidentes"), as autoridades mostram característico descuido e - exceto, talvez, pelos bombeiros - falta de profissionalismo. Os boatos e memes também começam a pulular.
Mas o impressionante, nesse tipo de situação, é a série de descuidados, negligências, de pouco caso consigo e com os outros.
É como pensar em tantas situações cotidianas, que incrivelmente certos lugares consideram tão naturais quanto a queda dos corpos.
No mesmo RJ, é quase um outro patrimônio natural as pessoas não darem lugar ao outro no transporte público, mesmo quando o banco ao lado está vazio. Só que não se resume a isso: não é apenas não dar lugar, e sim deixar os pertences, ou a perna ou parte do corpo, no lugar a ser ocupado, ou até já ocupado, pelo outro.
Os casos são surreais, e tão mais frequentes se a pessoa que precisa sentar ao lado é uma mulher. Por uma espécie de mistura entre dissimulação e naturalização do desrespeito, quem ocupa um lugar fica ali e se arroga no direito de ocupar o "território" por algum direito não declarado de "ter chegado ali primeiro". Pois, se uma homem senta ao lado, é incrível como a questão parece territorial. E quando uma mulher senta ao lado, a probabilidade de algum tipo de assédio se multiplica.
Esses "descuidados" não parecem em nada ser diferentes daqueles do ciclista, do motorista e de tantos outros. A coisa se assemelha a uma rede na qual as pessoas cumprem uma aposta não declarada, a de que "não vai dar nada" e ao fim tudo ficará bem, mesmo que isso gere ocasionalmente algum prejuízo ao alheio. Afinal, há também toda uma instituição para o caso de "dar merda", instituição que é tão mais eficiente quanto o número de aliados pessoais de alguém.
E esse tipo de relação, baseada num suposto descuidado (e que ao fim é uma espécie de negligência geral tácita), se multiplica em todo lugar. Está no serviço que não anuncia o preço, no prestador que varia a qualidade do serviço conforme o tipo de relação pessoal que tem com o cliente, enfim, por vezes parece um fantasma a imperar em muitas situações, especialmente as da rua.
Essas relações se institucionalizam, tomam forma, tornam-se concretas, chegando até nos gabinetes públicos (quem não conhece a figura do burocrata que é o soberano da própria mesa?). Elas não passam daquilo que estudiosos como Sergio Buarque chamava de "homem cordial". E a ironia é essa noção buarqueana ser confundida, como se cordial significasse "prestativo e afetivo". Mas Buarque chamava a atenção ao termo latino coração, *Cordis*, que significa agir em âmbito privado antes de pensar na esfera pública.
Daí em diante, o fluminense por vezes se surpreende. Afinal, esse cotidiano de pouco caso na rua pode atingir níveis gravíssimos, em relatos surpreendentes como o dos cariocas que querem ter um dia normal e tomar café, mas lá fora passam helicópteros e rajadas de fuzil. A pergunta então se torna inevitável: como é possível ter uma vida verdadeiramente normal assim?
@Bruiserzinha Na boa, acho que as pessoas se tocam e sabem. Tipo, virou uma espécie de instituição informal. É frequente demais. É como jogar papel no chão sem lixo ou dar aquele tempinho a mais na velocidade para não parar o carro e fazer o pedestre dar aquela corridinha.
O diferencial às vezes parece ser o das pessoas que não fazem. 🤔
O Projeto Gutenberg posta que hoje é data da morte de Carl G. #Jung, com informe e links.
Cara, sou homem e, desde que vim para o RJ, não me acostumei com esse patrimônio imaterial da região. Entro já pedindo licença pra pessoa se encolher. Se ela continua, eu CHEGO AO PONTO de falar para ela que há ali um limite de espaço.
Agora, imagino o horror que deva ser o assédio cotidiano com as mulheres.
Das pessoas que sentam com a perna invadindo o espaço do outro?
Saiu na Nature:
# ChatGPT broke the Turing test — the race is on for new ways to assess AI
*Large language models mimic human chatter, but scientists disagree on their ability to reason.*
@stuartelden nice to see you're back 🍷🍾
@adam42smith @lgpsales @gojonnes
Hi, It's indeed very hard to find a coherent and stable criterion for referring the original date on ABNT.
Do you have any recommendation on how I could change the code myself, making the "original-date" reference similar to the APA-like one, situated at the end of the reference?
Impressionado com o número de alarmes com anomalias de temperatura, vindos de vários lugares e fontes diversas, ontem e hoje.
QT: https://scicomm.xyz/@glennmagusharvey/110776269640372620
# Foucault: História da medicalização (1974)
Conferência inédita de Michel #Foucault no Rio de Janeiro, em 1974, no Instituto de Medicina Social da UERJ
FOUCAULT, M. Historia de la Medicalización. Educación Medica y Salud, v. 11, n. 1, p. 3–25, 1977 [link](https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/3184/Educacion%20medica%20y%20salud%20%2811%29%2C%204.pdf?sequence=1&isAllowed=y).
Não é exatamente a filosofia que se vê na academia, mas uma série coisas misturadas e cujo princípio da mistura envolve caracteres iniciáticos, inclusive.
I'm finding it a little hard to work today with this in my head.
Antarctic ice extent is now 6.4 standard deviations below the mean. That is, I'm reliably told, a one in 13 billion year event.
We're about to see a lot of shit hit a lot of fans. And we are far from ready.
Business as usual is over. Politics as usual is over. We need to be putting our effort into building systems that can help us survive what greed and power and wilful blindness have wrought.
@adam42smith @lgpsales @gojonnes
Thank you. So I will check it out about this and will come back soon ;)
@adam42smith @lgpsales @gojonnes I dont know if there are explicit rules on ABNT, but this is used in several ways like showed on the APA style above. Or even as this:
Bichat, X. Recherches physiologiques sur la vie et la mort, 1o partie [1800]. In: Bichat, X. Recherches
physiologiques sur la vie et la mort [1o partie] et autres textes. Paris: Flammarion, 1994, p. 55-209.
A apropriação das redes sociais por políticas de engajamento das #BigTechs é realmente incrível, e o caso do "suposto incesto" de Andressa Urach mostra como as redes sociais 1) precisam é de engajamento e 2) não importa qual seja o motivo do engajamento.
Também mostra o nível do interesse das pessoas, aliás.
A única vantagem, nisso, é o que outro colega mastodôntico disse: essas bizarrices, ao menos por enquanto, não vem do ex-presidente.
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Interesses: História da #Filosofia, História das #CiênciasHumanas, História da #Psicologia, Michel #Foucault. Também por #arte, #natureza e #fotografia.
Posto: o que vejo diante dos olhos, nessa curta vida. Compartilho links e coisas que me interessam, interajo, guardo informações, cito trechos, conjecturo, separo coisas para ler...
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